"DEVOÇÕES" - Uma tradução de um conto de Garielle Lutz
"Digo o melhor que posso o quase nada que sei."
De tempos a tempos eu reapareço em mim mesmo tempo suficiente só para as pessoas saberem que não estão sozinhas na sala. Habitualmente, estas são pessoas que esperam algo de mim -- um futuro próximo, algo não-muito-distante. Aquilo que lhes digo é limitado ao que veio das pessoas contra quem me casara. Digo o melhor que posso o quase nada que sei. Nem perto disso chega.
A minha primeira mulher, a minha mulher de sangue, não tinha quaisquer antecedentes, nenhuma espécie de relações, costumes ou cenário como pano de fundo. Ela aterrou agudíssima e já resumida. Devorávamos juntos todo o tempo todo e falávamos, alinhada e vocabularmente, sobre tudo o que fosse colocado diante de nós -- especialmente a carne, com a sua arrastada melodia de vida vivida. Não havia fim às ocasiões em que a mulher e eu nos demos bem, tanto em público como em privado.
Lembro-me de um cheiro que ela carregava nos braços, um aconchego, algo com que nascera ou que viajara uma longa distância para repousar nela. Estou certo de que havia muito mais naquilo que existia entre nós -- acho que tínhamos uma casa, uns cobertores no mínimo dos mínimos -- mas na noite que ela me deu aquilo que era obviamente uma foda de rescisão, nada mais precisou de ser dito, ninguém mais precisou de ser repreendido. Fui-me embora imediatamente. Quando eventualmente olhei para trás, as pistas já eram escassas.
A segunda mulher foi aquela que bebia. Era sempre eu a carregá-la no vai-e-vem de-e-para o trabalho. Os títulos dos empregos que teve enquanto estivemos casados podiam ser organizados tanto alfabetica como cronologicamente. Não sei se essa listagem faria qualquer diferença, se é que a diferença existe de todo. Mas as moradas -- mudámo-nos de casa em casa, embora nunca fossem ao certo casas, somente construções encaixotadas de telhados secos, com garagens debaixo de quartos desprovidos de ar que eu às vezes tentava espevitar -- provavelmente poderiam ser mapeadas de forma a evidenciar a nossa direção prevalente, sempre em direção a uma outra coisa qualquer.
Era uma mulher de dentes afundados, olhos ramelosos, e com uma cara que escurecia sempre que terminava de falar. Tinha franja, uma venda de cabelo negro, praticamente. À noite, eu assistia enquanto ela via a infantilidade fugir-se-lhe dos filhos. Acho que ela ia aguardando que se amontoassem numa única e mole desilusão. Eram três, e todos eles tinham dificuldades com o tempo -- não só a vê-lo, mas em saberem que o tempo já tinha passado, em saberem o que ia separando.
Numa noite em que a mulher bebeu até roncar, reuni as crianças na sala de estar. Sentámo-nos os quatro no sofá, uma família imediata e insómne. Eu decidi conceder a cada criança a justiça que lhe era devida, uma a uma. O mais novo mijava a cama frequentemente, portanto disse-lhe: “Tu transpiras muito, só isso. Quem não?” Assegurei o irmão do meio que ele comia constantemente, não por ter um parasita digestivo mas porque os seus dentes precisavam do exercício físico. E a mais velha, cujo professor mandava recados para casa a dizer que ela começara a falar sobre o seu cão-adotivo e o seu eu-adotivo, tive de ir provocando-a até ela reparar no trabalhão que o meu coração andava a debitar. Tudo isto saiu de mim no que me soou a uma voz paternal. Eu era bom a ludibriar-me.
A mulher eventualmente enfrentou as suas perturbações mentais colocando-se sob uns quantos auspícios -- para variar, uns auspícios bem altos e íngremes. Havia um homem, todo ele feito de dinheiro, que tinha na sua posse mais que um automóvel, e ela arranjou maneira de poder conduzir aquele que o homem menos gostava. Era cor-de-nabo e bastante raso. Uma noite, levou-me a dar uma volta nele e explicou-me que o homem a colocara a trabalhar num vasto hall, um sítio altitonante tipo auditório, onde as imensas secretárias se dispunham sobre pequenas plataformas até ao horizonte. Ela teve a atenção de manter o dito homem longe da sua descrição.
Lembro-me de olhar pela janela do pendura para o espelho retrovisor e para o tráfego que este me oferecia distorcido em itálico. Decalcado no espelho em caracteres de um branco espectral lia-se a afirmação “os objetos no espelho estão mais próximos do que aparentam.” A isto, assenti efusivamente.
Depois fiz algo parvo. Mudei-me para um apartamento e fiquei com a impressão que a pessoa no piso acima estava a seguir-me, lá em cima, de quarto em quarto. Durante a maior parte do dia, a minha vida restringia-se unicamente a este interesse. Ia eu caminhando da sala de estar até ao quarto, ou da cozinha à casa de banho -- tinha somente estas quatro divisões, por esta exata ordem -- e lá estaria também esta pessoa, mesmo em cima de mim, os seus passos abafados mas amigáveis, carinhosos.
Mais tarde ou mais cedo, apercebi-me que esta pessoa adivinhara a disposição das minhas divisões, mudara a mobília, os pertences e a sujidade do piso de cima para corresponderem rigorosamente aos meus -- permitindo assim que, numa passagem de divisão para divisão, caso eu parasse abruptamente (se me baixasse em direção a uma zona do chão onde uma revista caída tivesse aterrado num monte de páginas amarrotadas, por exemplo, e depois me soerguesse sobre ela reabilitativamente, alisando-lhe as páginas, restaurando-a o melhor possível a uma inviolável lisura de revista-não-lida), haveria, no exato sítio quatro ou cinco metros acima de mim, uma distração paralela para esta pessoa, um projeto seu que o ou a consumisse.
Por outras palavras, existia a minha vida, as minhas deambulações de quarto em quarto, e havia a sua reiteração barulhenta no piso de cima. Foi então assim que acabei casado vis-a-vis com a minha mulher final: mudei a minha pessoa e a pessoa do piso acima dos nossos respectivos apartamentos para uma casa noutra cidade. Esta mulher era jovem o suficiente para dar à luz. Foi um parto rápido e distraído.
A criança percorreu a sua vida com expressões na cara que não eram suas. Motoristas de autocarros e guardas-pedonais e empregados de mesa exigiam saber a quem pertenciam. O melhor que eu conseguia fazer era perceber o que eles queriam dizer e desviar o olhar. Havia sempre algo à espera de ser visto, algo sempre carente.
No que toca à criança, questões de origem irresolvida puseram-na suficientemente longe de mim para eu conseguir segurar um trabalho. Há quase um excesso de verdade se, em vez de segurar, eu dissesse que estava a sufocá-lo. O facto é que eu era um peso em cima dele, impedia-o de se concretizar. Foi uma incorreção pesada e esvaziante que eventualmente chamou à atenção de alguém num posto não muito elevado.
Depois chegaram noites em que, deitado de olhos abertos ao lado da minha mulher final, eu ia gastando demasiado tempo a meter o dedo na ferida daquilo que estava errado. Ia assim desgastando o dedo.
O que estava errado era muitíssimo simples.
Às vezes, a minha vida e a dela aconteciam no mesmo dia.
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Garielle Lutz é uma escritora estaduniense. É também editora na revista Harper, bibliotecária e antiga professora de inglês na universidade de Pittsburgh em Greensburg. É provavelmente a escritora favorita do vosso escritor favorito, e tem ganho algum buzz recente para um eventual prémio Nobel. O seu trabalho mais recente, Backwardness, foi lançado o ano passado e é uma coleção de textos epistolares da autora, uma coleção de 40 anos de trabalho que flutuam o real e o fictício.
Esta é uma tradução do conto Devotions, retirado da sua coleção de contos Stories in the Worst Way, e é publicada aqui com a autorização de Lutz (thank you so much!). Nenhuma das suas obras e textos foi até agora traduzida para português (e com base no quão idiossincrático é o seu inglês, não é de estranhar).



