Sobre Exposição
"Próstatas são como os homens: sempre iguais na sua diferença."
Analisar um paciente fazia-o pensar na vida. Na realidade, o verbo “pensar” é errado. Fica muitíssimo aquém das sensações que irrompiam nele durante cada análise (“sensação” parecia-lhe insuficiente também, mas tinha de se conformar com uma palavra entre todas as disponíveis no dicionário e, exclusão a exclusão, acabou esta como a eleita). Mas “analisar”, esse verbo, sim, aplicava-se perfeitamente ao que fazia, ao invés do típico “examinar” que toda a cambada médica insistia em usar. Tudo o que envolvesse uma inserção de algo no algo humano era, para ele, uma análise. Fizera a piada para si mesmo enquanto andava na Universidade Católica, cinco minutos antes da avaliação prática de exame análise à próstata, e sempre se riu em leves soluços daí em diante antes de inserir, devidamente lubrificados, o indicador e o dedo médio no paciente. Já o paciente, no momento da inserção grunhindo, suspirando e/ou gemendo (havia sempre um que gemia), não dava conta daquele bom-humor expirado. Era uma piada, mas era também toda uma realidade que levava muito a sério.
Depois da inserção vinha, então, a sensação. Cedo deixara de tentar compreender as suas origens, parecia-lhe uma perda de tempo. Considerava-se um homem do momento, de pés assentes na calçada, de olhos fixos no largo horizonte que era a vida que os seus pais pagaram para ele ter. Não investia em nostalgias, havia outras coisas que tinha de ponderar: Eva, a sua esposa, o filho (“ou filha”) que viriam a ter, o valor da casa deles, que o seu avô lhe deixara de surdina num canto do testamento, que ele imediatamente renovara para bem longe do seu historial estético oriundo do século XIX (chão flutuante, tetos falsos, vidros duplos, madeira falsa, branco casca-de-ovo em abundância, tudo novinho em folha). Uma casa de agora para o Agora, na qual queria iniciar família, soltar a primeira peça de um efeito dominó que, visto de cima, desenharia esbeltamente todo o seu Eu no presente, longe do passado. Só o futuro podia ser o seu legado. O resto era resíduo, pura indiferença.
O seu estoicismo quebrava, porém, quando analisava os seus pacientes. Próstatas são como os homens: sempre iguais na sua diferença. Todas reagiam nele, i.e. dentro dele, cada uma à sua maneira. Talvez fosse uma forma especial de projeção astral, aquilo que sentia. A sensação era sempre rápida, uns meros e belos 15 cliques do relógio, nem tanto. Aquilo que ao início lhe pareceu uma distração da sua profissão tornou-se, inevitavelmente, a razão pela qual a exercia.
Os sintomas dos pacientes traziam consigo imagens inauditas, cheiros esquecidos, cores que iam além do espetro visível: Um certo nódulo borrachoso conflagrou-lhe planos líquidos que misturavam a viagem ao Porto que fizera com os pais e com o irmão tinha ele uns 12 anos, o tabefe que o pai uma vez lhe pregara por dizer “foda-se” em jantar de Consoada, e a ocasião em que rematara uma garrafa de tinto sozinho no Bairro Alto e atirara-a à cabeça de um bêbedo sem-abrigo. A moleza de uma certa próstata lembrou-lhe a sensação saltitona de todos os insufláveis onde brincara, e sentiu as suas pernas vibrar um murmúrio. Houve uma próstata anomala, num rapazolas leigo com uns meros 25 anos que arrastava os pés no chão, onde uma pontada de dureza inesperada que lhe arrancou da memória o aroma enjoativo a manteiga que sentiu na boca da rapariga que lhe dera o seu primeiro beijo, ele e ela com oito anos escondidos debaixo do escorrega da escola.
Em casa a situação era de uma estabilidade fiável. Todos os dias a meio da manhã ele e a mulher faziam chamada de vídeo onde rotineiramente descreviam cronologicamente ponto a ponto o que haviam feito, detalhando o que iam fazer depois, deixando sempre algum espaço aberto para um potencial imprevisto (“nunca se sabe, não é?”). Eva integrava a equipa de recursos humanos de uma multinacional de IT cujo nome ele confundia sempre com a de outra multinacional de IT, até porque a primeira havia comprado uma outra que meses antes tinha comprado uma terceira empresa e, dizia ela, ainda não tinham substituído o nome da terceira empresa pelo nome da segunda nas paredes do edifício, e esperavam pelas placas e letras grandes que viriam substituir o nome da segunda pelo nome da primeira, por enquanto preferindo só tapar tudo com fita adesiva de um branco casca-de-ovo (“muito semelhante ao de nossa casa.”) Eva passava o dia a entrevistar candidatos a várias posições de alto a baixo na empresa e repetia-lhes as perguntas apropriadas às suas respectivas posições, perguntas estas que tomava de um livro de instruções que fizera para si mesma a partir de outro já existente feito pela empresa, no qual anotara virgulas próprias e fizera asteriscos em word para não se esquecer de dar ênfase aqui e ali. Ocasionalmente, já se dizia capaz de fazer perguntas originais, e descrevia com toda a alegria os momentos em que da cara dos entrevistados floresciam expressões faciais diferentes da neutralidade ambivalente que o manual produzia neles. Também lhe descrevia algumas caras, alguns sotaques, o que faziam com as mãos que lhe chamasse à atenção. Por outro lado, ele fazia o equivalente com os seus pacientes, descrevendo por sua vez alguns dos pénis e próstatas que lhe saltavam à vista ou à ponta dos dedos. Convém explicitar que, ao contrário do que sempre fizera com o colega careca, nunca contara à mulher as sensações que experienciava enquanto analisava as próstatas dos seus pacientes. Não o partilhava porque, à falta de uma explicação mais satisfatória ou elaborada, simplesmente nada disso lhe vinha à cabeça quando falava com ela. Onde essas sensações surgiam, essa paisagem era populada por um grão difuso de areia que lhe vibrava as têmporas, um zumbido à margem do limiar da audição, que sentia com agrado e o impelia sempre a uma aguada boa-disposição. Nas noites em que não fazia noites (o que era bastante comum, dado que as urgências de urologia reduziram a sua intensidade noturna com a normalização do lubrificante), ora ele cozinhava ou cozinhava Eva. Ele pegava sempre em receitas que via no livro que tinha na bancada da cozinha, ela tentando recriar os pratos que a avó ou a empregada da mãe faziam, ocasionalmente com algum sucesso. Faziam questão de fazer sexo pelo menos duas vezes por semana, tendo ele largado o preservativo e ela a pílula semanas antes, finalmente achavam que era hora de começarem a tentar, de serem pais de um menino (“ou de uma menina, nunca se sabe”).
Tinha um colega cardiologista, uns 15 anos mais velho que ele com uma careca de brilho razoável, com quem partilhava algumas destas histórias durante as horas de almoço. Ele devolvia-lhe curiosidade e interesse devotos, em memória dos tempos em que, dizia ele, também sentira algo parecido com aquelas sensações, que os padrões gerados por um eletrocardiograma, por exemplo, descortinavam-lhe as multitudes que vira em sonhos de quando era criança. Mas sobretudo ouvia, com mais que genuína curiosidade, a histórias que lhe eram contadas pelo urologista.
Um dia, contou ao careca sobre caso bizarro do homem impotente que vira essa manhã. Impotência não era incomum no seu consultório. Pelo contrário, era a segunda coisa mais comum com que se deparava, atrás de candidíases. Mas este impotente tinha algo particularmente anormal, no sentido de tudo nele estar normal tanto a nível físico como, segundo afirmava, psicologicamente. O paciente baixou as calças. À primeira vista, o pénis pareceu-lhe absolutamente normal, praticamente esquecível do quão básico era. A análise à próstata nada apontou. Estranhamente, também não lhe trouxe consigo nenhuma sensação. Sentiu, porém, algo que não tinha sentido antes, algo que parecia puxá-lo e prendê-lo, como se uma pequena ventosa lhe sugasse aquele ínfimo espaço entre as unhas e a ponta dos dedos. Eventualmente saiu do paciente e atirou a luva para o caixote (com mais força que o costume). Coçou a cabeça com mão que acabara de libertar, atarantado. O urologista perguntou-lhe se andava com stress no dia-a-dia; o paciente disse-lhe que não. Tinha um trabalho regular e organizado onde era acarinhado e valorizado por todos, uma bela casa, uma mulher que o satisfazia física e intelectualmente, uma filha que era o brilho dos seus olhos, um labrador que levava a passear todas as noites, jogava padel com os antigos amigos da escola a cada dois sábados, não fumava e só bebia um uisquizinho ocasional, lia sempre 15 minutos antes de se deitar e não prestava atenção ao telemóvel e a essas outras modernices. Problemas de saúde? Nunca os tivera, nem tomava nenhuma medicação regular à parte de umas gotas com que hidratava os olhos. Coçando novamente a cabeça, perguntou-lhe se se lembrava de alguma coisa assim mais particular antes de ter ficado impotente, até porque segundo o paciente, tal acontecera da noite para o dia, quando acordou de manhã sem a sua forte e habitual ereção matinal que, novamente, segundo o homem, tanto gozo deu a si e à sua mulher ao longo dos anos que estiveram juntos. Perguntou-lhe se alguma coisa tinha acontecido depois da última ereção que tivera, algo fora do absoluto normal. Talvez tivesse comido algo estragado, por exemplo. Ou batido com a cabeça algures, havia casos conhecidos de leves cacetadas com impactos severos no libido e na função do pénis, demorando semanas, senão mesmo meses a passar. O paciente disse que não a tudo, enquanto suspirava para os seus botões. A consulta deu-se por terminada. De mãos já apertadas em despedida, ia o paciente além da ombreira da porta com uma receita para um comprimido azul na mão quando estacou de súbito e pareceu hesitar. Sentado à secretária, o urologista disse ao seu colega que pareceu-lhe ver o paciente tremer no sítio, a olhar por detrás do ombro, e depois a olhar em direção aos seus pés. Voltou-se de súbito, deu um passo em direção ao consultório, em direção ao médico, parecia que ia dizer qualquer coisa enquanto o fixava com os seus olhos agora vermelhos e duas manchas de suor a inundarem-lhe as axilas. Não sabia quanto tempo o paciente permaneceu ali em silêncio, congelado. Nem o ronronar do ar condicionado se ouvia, o hospital como que sustendo a sua respiração metálica. Finalmente, o homem sorveu uma rápida lufada de ar e endireitou-se. “Um bom dia para si, doutor”, disse num sussurro rápido. Virou-lhe costas e saiu definitivamente do consultório.
Findado o relato, algo de estranho pairava no ar que partilhavam, ele e o careca. Ao contrário do seu entusiasmo habitual, o careca desta feita simplesmente não reagiu. Nem um pio. A pele da sua enorme testa ganhara, de um momento para o outro, a textura de cabedal velho. Despediu-se prontamente sem terminar o que tinha no prato e retornou em passo rápido ao seu consultório, algures no outro lado do hospital. No dia seguinte, o urologista fez contacto visual com o careca na cantina. Acenou-lhe. O careca não só não retribuiu o aceno com um viragem súbita dos ombros, como lhe cegou a vista temporariamente com um reflexo fulminante das lâmpadas fluorescentes na superfície polida do seu crânio. Daí em diante, este tornou-se a única forma de interação entre ambos, um ponto de luz fugido ao fundo dos átrios e corredores do hospital que lhe ameaçava as córneas sempre que nele focava os olhos.
No dia em que encontrou o paciente impotente, a sua rotina diária com Eva começou a descambar. Fizeram a habitual chamada por vídeo, mas a conversa foi carregada unicamente pela cabeça flutuante dela, cortada em quadrados cubistas quando a internet fraquejava, desfazendo-lhe a voz num aparato metálico que, aos ouvidos do urologista, a fazia parecer mais artificial que o costume. O jantar fora ele que o fizera nessa noite. Ele não desgostou, estava algo insonso, talvez, mas ela disse-lhe rapidamente que afinal não tinha fome. Reparou enquanto lavava a loiça que ela discretamente raspou os conteúdos do prato para o lixo em vez de um tupperware. Na sala de estar, depois de verem o último episódio de uma série e o primeiro episódio de outra, foram para a cama e tiraram a roupa um ao outro peça a peça com uma fluidez mecânica.
“Está tudo bem?” perguntou ela, com uma cara de choque.
Olhou para baixo e reparou que tinha o pénis flácido. Nunca demorava mais que dois minutos a crescer até à sua envergadura máxima de quinze centímetros e três milímetros. Sabia o tamanho de cor porque media-o pelo menos duas vezes ao ano com uma régua que ainda tinha dos seus tempos no colégio, e embora não tivesse crescido nem encolhido desde o segundo ano na Católica, quando de uma noite para a outra, após uma curta e infrutífera sessão de estudo em casa de uma rapariga de quem gostava na altura, lhe pareceu que tinha perdido sete milímetros de todas as ereções que sucederam à dessa noite. Nunca antes não o conseguira levantar, mas naquele dia não o conseguia fazer por nada. Ela brincava e puxava por ele, mas a gravidade da situação parecia arrastá-lo ainda mais em direção ao chão flutuante. Foi à casa de banho e diante do espelho tentou despertá-lo com as mãos enquanto se olhava de alto a baixo, e não conseguia. Sentia um vazio na virilha, como se se tivesse desconectado de si mesmo. Um buraco negro em miniatura residia ali entre as suas pernas e ameaçava sugar tudo o que o rodeava. A inquietude da sensação fazia-o pular de ansiedade, queria enfiar-se debaixo da cama e enterrar a cara na almofada. Não conseguia encarar a mulher nos olhos quando voltou ao quarto. Deitou-se de costas para ela e fê-la ser, pela primeira vez em memória, a conchinha grande, da qual se descolou muito antes de ele conseguir adormecer (“.”)
Ao longo dos dias seguintes, todas as análises trouxeram uma mão cheia de nada ao urologista. As visões, os odores, as sensações, tudo desaparecera. O poço secara. Dentro de cada cavidade retal encontrava somente o que encontrava. Todos os cheiros, disfarçados pela frescura tépida hospitalar, eram-lhe aborrecidos e corriqueiros. Os gemidos súbitos dos pacientes que antes desabrochavam-lhe epifanias profundas (ele desgostar fortemente de interagir com operadores de caixa em supermercados; os seus pais dormirem num quarto com nove crucifixos pregados à parede para contrabalançar os pequenos pecados que iam cometendo todos os dias; Entrecampos ser assim chamado por estar entre o Campo Grande e o Campo Pequeno) eram agora uma mera agitação na ponta dos seus dedos. Os seus dias de consultas, antes sempre estimulantes, escorriam aos poucos para uma letargia dolorosa. Em casa, continuava murcho e moribundo sob os discursos e hábitos cada vez menos rotineiros de Eva. Uma noite Eva foi deitar-se mais cedo que o habitual, dizendo estar cansada e com sono. Quando passada meia hora ele se dirigiu para o quarto, a porta estava fechada. Encostou o ouvido à porta. Ouviu gemidos ofegantes e periódicos, acompanhados de um leve zzz zzz zzz. Foi para a casa de banho e ficou sentado na sanita duas horas com o som vibratório a mosquitar-lhe os ouvidos zzz zzz zzz, até à exaustão ser tanta que se arrastou para a cama onde Eva ressonava levemente zzz zzz zzz. Estava desesperado e não sabia o que fazer zzz zzz zzz.
Passadas umas semanas, irrompeu um alívio. Percebeu que andava a memorizar os pénis de todos os homens que lhe iam passando pelo consultório. Talvez tenha sido o desespero para fugir à mágoa que o levou a criar este catálogo imaginário de falos na sua cabeça. A ideia fizera-o estremecer, questionar coisas. Mas tudo o que se estranha também se entranha, se o vazio for largo o suficiente. Enfim, tinha de se focar em algo e isto, o catálogo de pénis, encaixou-lhe nas medidas.
Fosse para uma análise à próstata, ainda que sem sensações, fosse para um simples exame do pénis, memorizava sempre o dito-cujo do paciente. Além do mais, memorizava-o em concordância com a cara a quem pertencia. Não só haviam tantos pénis quanto caras diferentes, como não se podiam dizer as caras pelos pénis que lhes correspondiam. Por outras palavras, o aparato genético que se aglomerava nas feições de alguém era claramente distinto daquele que tratava o pénis. Por exemplo, nunca lhe passara pela cabeça corresponder um homem careca a um pénis com um prepúcio quase tão grosso quanto a glande, mas um dos pacientes habituais dele assim o tinha. Ninguém o havia preparado para este tipo de discrepâncias no curso da Católica, mas lá que teve de se habituar teve. Agora eram estas contradições que lhe serviam de consolação. Cada anomalia, cada bela estranheza era uma pequena palmadinha no ombro, um aconchego no coração.
O dia-a-dia no consultório tornara-se mais fácil de engolir, mas as coisas com Eva continuavam em caldo resfriado, sem fim à vista. Nunca mais teve a coragem tocar com um dedo que fosse no tópico do hipotético filho que havia planeado com ela. As chamadas de vídeo tornaram-se menos e menos frequentes, ela passara a cozinhar todas as refeições e o som vibratório já residia permanentemente nos tímpanos do urologista zzz zzz zzz, ao ponto de não saber se era ou não imaginação sua. Assim foi tudo persistindo até ao dia em que o tal homem impotente retornou-lhe ao consultório para uma consulta.
Desta vez retornava sorridente e afável. Veio dizer-lhe que o seu problema de impotência havia desaparecido assim que saíra pela porta do consultório. Agora, ele e a sua mulher sentiam-se piores que coelhos, que faziam-no a qualquer momento do dia em que pudessem, quando os filhos estivessem na escola ou nos treinos ou nas explicações, às vezes até mesmo com os filhos em casa, abafando as suas vozes com almofadas ou com as mãos. Não voltara a ter uma consulta tão cedo porque, dizia ele, tinha receio que ao voltar deixasse a sua potência algures pelo caminho. Mas como não se perdera, muito pelo contrário, só ganhara pujança com os meses, achou que devia vir partilhar isso com o seu médico urologista, para entender melhor o que se estava a passar. Porque, por melhor que fosse, era muito muito muito estranho. Já com as calças baixas, ele ficou impressionado com o membro do senhor paciente. Nunca tinha visto um assim. Já vira maiores, já vira mais grossos. Mas nunca vira um tão perfeito. Este era digno de imagem num manual universitário de Anatomia 1. Tinha um tamanho ideal e uma proporção perfeitamente enquadrada com a largura dos testículos. Assim que lhe tocou na glande, ele assumiu toda a sua envergadura, cada veia e artéria esculpindo-se como se fossem de mármore. Todo aquele imponência gravou-se-lhe a ferro quente nas retinas. Sabia que nunca mais se iria esquecer dele até ao dia da sua morte. E algo que nunca lhe acontecera irrompia agora: enquanto segurava o pénis ereto do paciente, despertava agora na ganga apertada das suas calças uma forte ereção, a primeira que sentia havia meses. O maxilar estava-lhe caído e um fio de baba quase que lhe escorreu pelo canto do lábio.
Quando voltou a si, quase implorou ao paciente para se vestir. Disse-lhe que estava tudo bem e galgou-se a correr com ele do consultório. Nem o homem havia passado pela ombreira da porta e já ligava ele a Eva, a pedir-lhe que saísse o mais rapidamente do escritório, para se encontrarem em casa o quanto antes. Fechou-se no quarto com ela o resto da tarde, e a coisa prosseguiu pela noite fora. Ele contou um total de 11 orgasmos seus, nunca conseguira nem metade antes numa maratona. Sempre que se veio, a imagem do pénis perfeito do seu paciente vinha-lhe à mente, imaginava que aquele pénis lhe pertencia, que era ele quem o carregava, ele quem o usava em Eva, e o prazer que isso lhe dava era um que nunca sentira antes. As sensações que perdera não tinham metade da vida pura que sentiu durante aquela noite. Quando os dois adormeceram já o sol raiava. Mesmo antes de fechar os olhos, fitou a cara muda de Eva. Pareceu-lhe feliz.
Passadas quatro semanas, Eva teve a confirmação que estava grávida.
Já com cinco meses de gravidez, sabiam que era um rapaz.
O parto, quando aconteceu, foi rápido e produtivo. O bebé saiu prontamente da mãe e ele foi a primeira pessoa a pegar nele (a seguir ao médico). Quase deixou cair o rapaz quando lhe viu a cara. Recusava-se a reconhecê-la, e nem tão pouco lhe olhou para o pénis com súbito temor daquilo que pudesse ver, pudesse sentir.
Até ao resto da sua vida, nunca mais conseguiu uma ereção. Também não esquecia a ereção do seu paciente, via-a frequentemente nos seus sonhos, transformada num largo monumento de pedra no horizonte de tudo.
Eva deixou-o após um ano de paciência passageira. A casa do avô, através dum emaranhado legal que conjugava a custódia do filho com dívidas antigas do avô ao fisco, fez com que o tribunal cedesse a sua posse inteiramente a Eva. O urologista suspirou o tipo de alívio que acolhe quem perde um sorteio e não tem de se levantar para o colecionar diante de uma audiência invejosa.
Continuou a dar consultas, desta vez já sem conseguir sentir ou memorizar o quer que fosse. Não havia sensações, e os pénis e as caras misturavam-se todos numa mancha baça e serena. Passaram-se anos. Agora dá consultas num novo hospital numa nova cidade. Encontrou um novo médico, acabadinho de entrar em serviço, um otorrino espevitado, que lhe fala durante as horas de almoço sobre as pinturas em movimento que descortina (é esse o seu verbo preferencial) nos ouvidos dos seus pacientes. O urologista ouve os relatos de sorriso nos lábios e vai fazendo questões e apontamentos ao que ouve, interessado e dedicado. Acabado o almoço e de volta ao seu consultório, a primeira coisa que faz sempre, sempre, sempre, é respirar de alívio.
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